A HISTÓRIA DO LIVRO

Que é o livro?  Para fins estatísticos, na década de 1960, a Unesco considerou o livro “uma publicação impressa, não periódica, que consta de no mínimo 56 páginas, sem contar as capas”.
O livro é um produto industrial.  Mas também é mais do que um simples produto.  O primeiro conceito que deveríamos reter é o de que o livro como objeto é o veículo, o suporte de uma informação.  O livro é uma das mais revolucionárias invenções do homem.
A Enciclopédia Abril (1972), publicada pelo editor e empresário Victor Civita, no verbete “livro” traz concisas e importantes informações sobre a história do livro.  A seguir, transcrevemos alguns tópicos desse estudo didático.

O Livro na Antiguidade

Antes mesmo que o homem pensasse em utilizar determinados materiais para escrever (como, por exemplo, fibras vegetais e tecidos), as bibliotecas da Antiguidade estavam repletas de textos gravados em tabuinhas de barro cozido.  Eram os primeiros “livros”, depois progressivamente modificados até chegarem a ser feitos – em grandes tiragens – em papel impresso mecanicamente, proporcionando facilidade de leitura e transporte.  Com eles, tornou-se possível em todas as épocas, transmitir fatos, acontecimentos históricos, descobertas, tratados, códigos ou apenas entretenimento.
Como sua fabricação, a função do livro sofreu enormes modificações dentro das mais diversas sociedades, a ponto de constituir uma mercadoria especial, com técnica, intenção e utilização determinadas.  No moderno movimento editorial das chamadas sociedades de consumo, o livro pode ser considerado uma mercadoria cultural, com maior ou menor significado no contexto socioeconômico em que é publicado.  Como mercadoria, pode ser comprado, vendido ou trocado.  Isso não ocorre, porém com sua função intrínseca, insubstituível: pode-se dizer que o livro é essencialmente um instrumento cultural de difusão de ideias, transmissão de conceitos, documentação (inclusive fotográfica e iconográfica), entretenimento ou ainda de condensação e acumulação do conhecimento.  A palavra escrita venceu o tempo, e o livro conquistou o espaço.  Teoricamente, toda a humanidade pode ser atingida por textos que difundem ideias que vão de Sócrates e Horácio a Sartre e McLuhan, de Adolf Hitler a Karl Marx.

Espelho da Sociedade

A história do livro confunde-se, em muitos aspectos, com a história da humanidade.  Sempre que escolhem frases e temas, e transmitem ideias e conceitos, os escritores estão elegendo o que consideram significativo no momento histórico e cultural que vivem.  E, assim, fornecem dados para a análise de sua sociedade.  O conteúdo de um livro – aceito, discutido ou refutado socialmente – integra a estrutura intelectual dos grupos sociais.
Nos primeiros tempos, o escritor geralmente vivia em contato direto com seu público, que era formado por uns poucos letrados, já cientes das opiniões, ideias, imaginação e teses do autor, pela própria convivência que tinham com ele.  Muitas vezes, mesmo antes de o texto ser redigido, as ideias nele contidas, já haviam sido intensamente discutidas pelo escritor e parte de seus leitores.  Nessa época, como em várias outras, não se pensava na enorme porcentagem de analfabetos.  Até o século XV, o livro servia exclusivamente a uma pequena minoria de sábios e estudiosos que constituíam os círculos intelectuais (confinados aos mosteiros durante o começo da Idade Média) e que tinham acesso às bibliotecas, cheias de manuscritos ricamente ilustrados.
Como reflorescimento comercial europeu, nos fins do século XIV, burgueses e comerciantes, passaram a integrar o mercado livreiro da época.  A erudição laicizou-se e   o número de escritores aumentou, surgindo também a primeiras obras escritas em línguas que não o latim e o grego (reservadas aos textos clássicos e aos assuntos considerados dignos de atenção).  Nos séculos XVI e XVII, surgiram diversas literaturas nacionais, demonstrando, além do florescimento intelectual da época, que a população letrada dos países europeus estava mais capacitada a adquirir obras escritas.

Cultura e Comércio

Com o desenvolvimento do sistema de impressão de Gutemberg, a Europa conseguiu dinamizar a fabricação de livros, imprimindo, em cinquenta anos, cerca de 20 milhões de exemplares para uma população de quase 100 milhões de habitantes, cuja a maioria era analfabeta.  Para a época, isso significou enorme revolução, demonstrando que a imprensa só se tornou uma realidade diante da necessidade social de ler mais.
Impressos em papel, feitos em cadernos costurados e posteriormente encapados, os livros tornaram-se empreendimento cultural e comercial: os editores passaram logo a se preocupar com melhor apresentação e redução de preços.  Tudo isso levou à comercialização do livro.  E os livreiros baseavam-se no gosto do público para imprimir, principalmente obras religiosas, novelas, coleções de anedotas, manuais técnicos e receitas.
Mas a porcentagem de leitores não cresceu na mesma proporção que a expansão demográfica mundial.  Somente com as modificações socioculturais e econômicas do século XIX – quando o livro começou a ser utilizado também como meio de divulgação dessas modificações e o conhecimento passou a significar uma conquista para o homem, que, segundo se acreditava, poderia ascender socialmente se lesse – houve um relativo aumento no número de leitores, sobretudo na França e na Inglaterra, onde alguns editores passaram a produzir obras completas de autores famosos a preços baixos.  O livro era então interpretado como símbolo de liberdade, conseguida por conquistas culturais.  Entretanto, na maioria dos países, não houve nenhuma grande modificação nos índices porcentuais até o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando surgiram as primeiras grandes tiragens de um só livro, principalmente romances, novelas e textos didáticos. O número elevado de cópias, além de baratear o preço da unidade, difundiu ainda mais a leitura.  Mesmo assim, a maior parte da população de muitos países continuou distanciada do livro, em parte porque ele tinha sido durante muitos séculos considerado objeto raro, atingível somente por um pequeno número de eruditos.  A grande massa da população mostrou maior receptividade aos jornais, periódicos e folhetins, mais dinâmicos e atualizados, e acessíveis ao poder aquisitivo da grande maioria.  Mas isso não chegou a ameaçar o livro como símbolo cultural de difusão de ideias, como fariam, mais tarde, o rádio, o cinema e a televisão.
O advento das técnicas eletrônicas, o aperfeiçoamento dos métodos fotográficos e a pesquisa de materiais praticamente imperecíveis fazem alguns teóricos da comunicação de massa pensarem em um futuro sem os livros tradicionais (com seu formato quadrado ou retangular, composto de folhas de papel, unidas uma às outras por um dos lados).  Seu conteúdo e suas mensagens (racionais ou emocionais) seriam transmitidas por outros meios, como por exemplo microfilmes, e fitas gravadas.  A televisão transformaria o mundo todo em uma grande “aldeia” (como afirmou Marshall McLuhan), no momento em que todas as sociedades decretassem sua prioridade em relação aos textos escritos.  Mas a palavra escrita dificilmente deixaria de ser considerada uma das mais importantes heranças culturais, entre todos os povos.
Através de toda a sua evolução, o livro sempre pôde ser visto como objeto cultural (manuseável, com forma entendida, e interpretada em função de valores plásticos) e símbolo cultural (dotado de conteúdo, entendido e interpretado em função de valores semânticos).  As duas maneiras podem fundir-se no pensamento coletivo, como um conjunto orgânico ( onde texto e arte se completam, por exemplo, em um livro de arte) ou apenas como um conjunto textual ( onde a mensagem escrita vem em primeiro lugar – em um livro de matemática, po exemplo).
A mensagem (racional, prática ou emocional) de um livro é sempre intelectual e pode ser revivida a cada momento.  O conteúdo, estático em si, dinamiza-se em função da assimilação das palavras pelo leitor, que pode discuti-las, reafirmá-las, negá-las ou transformá-las.  Por isso, o livro pode ser considerado instrumento cultural capaz de liberar informação, sons, imagens, sentimentos e ideias através do tempo e do espaço.  A quantidade e a qualidade de ideias colocadas em um texto podem ser aceitas por uma sociedade, ou por ela negadas, quando entram em choque com conceitos ou normas culturalmente admitidos.
Nas sociedades modernas, em que a classe média tende a considerar o livro como sinal de status e cultura (erudição), os compradores utilizam-no como símbolo, mesmo desvirtuando suas funções ao transformá-lo em livro-objeto.  Mas o livro é, antes de tudo, funcional – seu conteúdo é que lhe dá valor (os livros de ciências, filosofia, religião, artes, história e geografia, que, representam cerca de 75% dos títulos publicados anualmente em todo o mundo).

O mundo lê mais
No século XX, o consumo e a produção de livros aumentaram progressivamente.  Lançado logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando uma das características principais da edição de um livro era as capas entreteladas ou cartonadas, o livro de bolso constituiu um grande êxito comercial.  As obras – sobretudo best-sellers publicados algum tempo antes em edições de luxo – passaram a ser impressas em rotativas, como as revistas, e distribuídas nas bancas de jornal.  Como as tiragens elevadas permitiam preços muito baixos, essas edições de bolso popularizaram-se e ganharam importância em todo o mundo.
Até 1950, existiam somente livros de bolso destinados a pessoas de baixo poder aquisitivo; a partir de 1955, desenvolveu-se a categoria do livro de bolso “de luxo”.  As características principais destes últimos eram a abundância de coleções – em 1964 havia mais de duzentas, nos Estados Unidos – e a variedade de títulos, endereçados a um público intelectualmente mais refinado.  A essa diversificação das categorias adiciona-se a dos pontos de venda, que passaram a abranger, além das bancas de jornal, farmácias, lojas, livrarias, etc.    Assim, nos Estados Unidos, o número de títulos publicados em edições de bolso chegou a 35 mil em 1969, representando quase 35% do total dos títulos editados.

Enciclopédia Abril, vol.7. São Paulo: Abril, 1973, p.2840-2842

Reprodução do original: “A história do livro e a coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”, Palavras do Editor – Martin Claret, p.7 vol.158 da coleção A Obra-prima de Cada Autor”, Editora Martin Claret Ltda. – São Paulo 2012